Mulher da Vida no Nosso Sofá

ALCINO LEITE NETO EDITOR DE DOMINGO
E o que é Nazaré? É aquela que dissocia prazer e reprodução, que contrapõe maternidade e sociedade. Ela deseja a prole sem querer o cônjuge e a vida doméstica. Em vez do lar e da sublimação, ela vai rodar a bolsinha na avenida. Uma personagem assim, que age movida pela força incontrolável do desejo e desafia a ordem da família, só poderia ser um distúrbio, para não ofender o público. Nazaré será, portanto, um misto de puta, de criminosa e de louca. Tudo isso, além de ser a perversa por excelência, a obsessiva das perucas, dos disfarces e travestimentos, a narcisista camp -ou verdadeira metáfora da bicha louca para o consumo doméstico. Metamorfoses e subentendidos que Renata Sorrah compreendeu brilhantemente, com seu estilo entre o expressionismo, o underground e o desenho animado. No fundo, Nazaré é uma provocação que Aguinaldo Silva, ex-militante homossexual, lançou aos espectadores a cada noite, sub-repticiamente, sob a máscara ficcional da vilania e da ironia. Provocação que começa no nome (e sua referência religiosa) e segue no modo como a libertinagem foi exibida no horário nobre -mesmo quando ela se metia na cama com dois amantes juntos. Quanto mais o desejo enlouquecia Nazaré, mais os espectadores se entusiasmavam com a personagem. No dia-a-dia dos capítulos, Nazaré era para eles a miragem dos prazeres e dos perigos que a vida reserva a quem escapa da redoma familiar.
Escrito por OLiver Hard às 01h36
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